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As Foguerias no Rio Sagrado
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AS FOGUEIRAS NO RIO SAGRADO
As fogueiras que ardem nas margens do Ganges consomem cadaveres, reduzidos a cinzas em tres horas de fogo intenso. Em varanasi, os hindus que sucumbem sao cremados, e suas cinzas e ossos sao lancados ao fluxo do rio que desce de Brahma, o criador. Os fieis acreditam que o fogo os levara' aos ceus, e que a cremacao e' um momento de alegria. No final da tarde de hoje, obriguei-me a assistir a uma cremacao. E como espaco fisico e' material escasso na India, acabei assistindo a cinco cremacoes simultaneas, acontecendo no mesmo espaco de cerca de vinte metros longitudinais de margem do Ganges. Desci do Taxi e, com grande apreensao, adentrei as ruelas que levam a um dos crematorios. O barqueiro que me acompanhava assegurou-mes, entusiasmado, que haviam "varios corpos a serem cremados naquela tarde", o que antecipou em mim uma tetrica imagem mental de uma especia de necroterio indigente e barbaro. Mas segui em frente. Na margem, ardiam cinco fogueiras, em diversos estagios. Mais dois corpos, envoltos em tecidos, estavam sendo colocados sobre duas novas pilhas de lenha. Em poucos minutos, arderiam como os demais. Meu ultimo sentimento de repulsa foi vencido quando assiti ao trabalho desempenhado pelas chamas na fogueira mais proxima, na qual os pes ainda mantinha a forma. Gradativamente, foram inchando pelo calor, vertendo gordura humana liquefeita, escurecendo em antes de incendiarem-se, foram mecanicamente revolvidos, dobrados como coxas de frango e lancados ao cerne da fogueira. Trabalho diligente exercido pelo "coveiro", e assistido pelos familiares, dos quais poucas lagrimas fluiam, talvez por esgotada a fonte. No mesmo fogo, o cranio expulsava tudo que outrora fora materia pensante, agora reduzida a um fluxo espumante de fluidos mistos derretidos, vertendo pela boca, ouvidos e cavidade nasal. Depois disso, meu cerebro suprimiu toda ansiedade. Fixei a atencao em dois grandes barcos a remo, que chegavam com dezenas de indianos trajados com estilo. Aproximando-se da margem e das fogueiras, seus ocupantes gritaram, em coro, e a plenos pulmoes: OSHO! OSHO! OSHO! Desceram do barco, e com eles trouxeram um corpo, todo coberto de flores, `a excecao do rosto, com barbas grisalhas e expressao serena. Eram hinduistas seguidores de Osho, o guru que fez sucesso internacional. O morto era membro da congregacao. Pela barba, e pelos inumeros seguidores que integravam o cortejo, tratava-se de um "Sadhu", ou homem-santo, fiel abnegou de seus bens materiais para alcancar a paz atravez de uma vida de privacoes. O seguidor de Osho foi posto na pira mais alta. Existe hierarquia ate' no fogo dos mortos. Ardeu por tres horas e retornou ao estado mineral: dioxido de carbono e cinzas. Durante a cerimonia, vi poucas lagrimas. As mais intensas, credito `as mulheres com parentesco proximo ao Sadhu. O clima de festa forjado pelos demais fieis - que cercavam a pira ainda apagada, com toca-fitas, gargalhadas em coro e gritos de louvor - nao suprimiu a dor dos parentes. Mesmo na cega fe' hinduista, subsiste a saudade egoista, a carencia legitima, a duvida quanto `as "verdades" religiosas e o desamparo da solidao. Crenca alguma eliminara' a ansiedade daqueles que trilharao a escura estrada do futuro sozinhos, destituidos do apoio do amigo, irmao, filho ou conjuge falecido. Mas naquele momento desejei sinceramente que a alegria dos seguidores de Osho implantasse-se, por osmose, nos parentes aflitos, e que a religiao tivesse, naquele momento, uma unica face, um unico lado, e que ele fosse o lado positivo.
JCM
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